Desigualdade salarial entre homens e mulheres persiste no Brasil: mulheres ganham 21% a menos, aponta relatório do MTE
Mesmo com avanços na participação feminina no mercado de trabalho, a desigualdade salarial entre homens e mulheres continua sendo uma realidade marcante no Brasil. Segundo o 4º Relatório de Transparência Salarial e Critérios Remuneratórios, divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), as mulheres ainda recebem, em média, 21% menos do que os homens.
O levantamento, que avaliou mais de 54 mil empresas com pelo menos 100 funcionários entre o segundo semestre de 2024 e o primeiro de 2025, mostra que a remuneração média feminina foi de R$ 3.908, enquanto a dos homens alcançou R$ 4.958.
Embora a diferença ainda seja expressiva, o relatório aponta um pequeno avanço na presença das mulheres no mercado formal: a participação feminina passou de 40,6% para 41% no período. Ainda assim, os homens seguem dominando a maior parte das vagas — 59% dos mais de 19,4 milhões de postos de trabalho analisados.
Esses números expõem uma desigualdade persistente, que não se limita à remuneração, mas também à ocupação de cargos de liderança, à distribuição setorial e ao acesso a políticas de valorização profissional.
Desigualdade salarial: o retrato da disparidade de gênero no Brasil
A desigualdade salarial entre homens e mulheres é um reflexo direto das barreiras históricas enfrentadas pelas trabalhadoras brasileiras. Apesar de maior escolaridade média, as mulheres ainda encontram obstáculos para alcançar posições de chefia e receber salários compatíveis com suas qualificações.
De acordo com o relatório do MTE, a massa salarial feminina representa apenas 35% do total pago pelas empresas, mesmo que as mulheres correspondam a 41% da força de trabalho. O dado reforça que as mulheres continuam concentradas em cargos de menor remuneração e enfrentam dificuldades para acessar funções executivas.
A subsecretária de Estatísticas e Estudos do Trabalho do MTE, Paula Montagner, destaca que medidas como flexibilização da jornada, incentivo à contratação de minorias e revisão de critérios de promoção interna são caminhos essenciais para mitigar as desigualdades estruturais.
O problema, contudo, vai além das empresas: envolve fatores culturais, sociais e econômicos que ainda atribuem às mulheres a maior parte das responsabilidades domésticas e do cuidado com os filhos, limitando suas oportunidades de crescimento profissional.
Diferença salarial racial amplia a desigualdade entre mulheres
Quando o recorte passa pela questão racial, a desigualdade salarial entre homens e mulheres se torna ainda mais alarmante. O relatório revela que, na admissão, a diferença salarial entre mulheres e homens negros chega a 33,5%.
Além disso, as mulheres negras ganham menos da metade do que os homens negros: R$ 2.986 contra R$ 6.391. Essa discrepância expõe uma dupla desigualdade — de gênero e de raça — que mantém um contingente expressivo de trabalhadoras em situação de vulnerabilidade econômica.
A análise reforça a necessidade de políticas públicas específicas voltadas à inclusão racial e de gênero, com programas de qualificação profissional, incentivo à diversidade nas empresas e transparência nos critérios de promoção e remuneração.
Estados com maior e menor desigualdade salarial
O relatório do MTE também mostra que a desigualdade salarial entre homens e mulheres varia significativamente entre os estados brasileiros.
As maiores disparidades foram registradas no Paraná e no Rio de Janeiro, onde as mulheres ganham, em média, 28,5% a menos do que os homens. Em seguida aparecem Santa Catarina, Mato Grosso e Espírito Santo, com diferenças próximas a 27%.
Já as menores discrepâncias ocorrem no Piauí (7%), Amapá, Acre e Distrito Federal, com uma diferença média de 9%.
Embora o resultado desses estados indique avanços, especialistas ressaltam que a redução do abismo salarial depende de ações estruturais, como o cumprimento da Lei da Igualdade Salarial (Lei nº 14.611/2023) e a implementação efetiva de políticas de transparência remuneratória.
Participação feminina cresce, mas cargos de liderança ainda são dominados por homens
Apesar do aumento na participação das mulheres no mercado formal, os números mostram que a ascensão profissional ainda é desigual. A presença feminina em cargos de chefia e direção permanece inferior à masculina, o que reforça a hierarquia de gênero nas empresas.
Dados complementares do MTE indicam que menos de 38% das posições de liderança são ocupadas por mulheres. Esse percentual é ainda menor em setores tradicionalmente dominados por homens, como construção civil, tecnologia e indústria pesada.
Além da limitação no acesso a cargos de gestão, as mulheres também enfrentam dificuldades para negociar aumentos salariais e promoções, especialmente após a maternidade — fator conhecido como “penalidade da maternidade”, que afeta diretamente o avanço de suas carreiras.
Políticas públicas e o papel das empresas
Para combater a desigualdade salarial entre homens e mulheres, o governo federal aposta em iniciativas de transparência e fiscalização. Desde 2023, a legislação brasileira exige que empresas com mais de 100 funcionários publiquem relatórios semestrais comparando salários por gênero e raça.
Essa política visa pressionar o setor privado a revisar práticas discriminatórias e adotar medidas que garantam igualdade real. Empresas flagradas com disparidades injustificadas podem ser multadas e obrigadas a apresentar planos de correção.
Além disso, o Ministério do Trabalho e Emprego incentiva ações internas como programas de mentoria feminina, planos de equidade salarial, treinamentos de inclusão e políticas de promoção transparente.
Por outro lado, especialistas apontam que o combate à desigualdade não depende apenas do poder público. As empresas têm papel decisivo ao promover ambientes de trabalho inclusivos, garantir licença parental equilibrada, incentivar a presença de mulheres em áreas de STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) e adotar práticas de recrutamento sem viés de gênero.
O impacto econômico da desigualdade de gênero
A desigualdade salarial entre homens e mulheres não é apenas um problema de justiça social, mas também um entrave econômico. Estimativas do Banco Mundial e da ONU Mulheres indicam que a igualdade plena poderia aumentar o PIB brasileiro em até 14% nas próximas décadas.
Quando as mulheres recebem menos, há uma perda coletiva: o consumo é reduzido, o crescimento econômico desacelera e a desigualdade social se perpetua. Além disso, a exclusão de talentos femininos em posições de liderança impede a inovação e a competitividade das empresas.
Países que investiram em políticas de igualdade de gênero — como Islândia, Noruega e Canadá — registraram avanços significativos em produtividade e bem-estar social. O Brasil, no entanto, ainda ocupa posição modesta nos rankings internacionais de equidade, refletindo o desafio de transformar avanços legais em resultados concretos.
Caminhos para reduzir a desigualdade salarial
O enfrentamento da desigualdade salarial entre homens e mulheres exige uma combinação de esforços públicos e privados. Entre as principais estratégias apontadas por especialistas estão:
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Fiscalização contínua das empresas — garantindo o cumprimento da Lei de Igualdade Salarial.
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Ampliação da licença-paternidade — medida que ajuda a equilibrar a divisão das responsabilidades familiares.
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Programas de capacitação e mentoria — voltados à formação de lideranças femininas.
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Políticas de diversidade e inclusão — que assegurem oportunidades reais para mulheres negras, indígenas e de baixa renda.
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Campanhas educativas — voltadas à mudança de mentalidade e à valorização da equidade de gênero.
Essas ações, quando integradas, têm potencial para transformar a realidade do mercado de trabalho e abrir caminho para uma sociedade mais justa e produtiva.
Uma luta que ultrapassa gerações
A persistente desigualdade salarial entre homens e mulheres é reflexo de uma estrutura social enraizada, que precisa ser enfrentada com compromisso e transparência. Apesar dos avanços, o ritmo da mudança ainda é lento, e o cenário exige políticas consistentes, acompanhamento rigoroso e engajamento coletivo.
As conquistas femininas nas últimas décadas mostram que o caminho é possível — mas ainda há muito a ser feito para que o trabalho da mulher seja valorizado de forma igualitária. Reduzir o abismo salarial não é apenas uma questão de gênero, mas um imperativo moral, social e econômico para o Brasil do século XXI.
































